Ribeiro de Pensamentos ( Stream of Consciousness)

Dia bom. Sem som. Sem palavras como veneno. Frases como setas. Apenas cometas. Corpos celestes atravessam o céu e eu vou lá em cima. E eu vou. E se pudesse não voltava. Não seria. Não viveria aqui. Seria para sempre estrela. A brilhar por cima da minha antiga casa. Seria para sempre planeta. Uma atmosfera de emoções e sensibilidade. Planeta como a Terra mas em que eu seria Deus. Não comeríamos seres sencientes. Não haveria a crueldade que há aqui. No meu mundo haveria justiça. Aqui não há. Se bem que agora há mais e mais justa do que alguma vez houve. Nunca vivemos tão bem. Reis de há um século atrás não tinham nada do que temos agora, não tinham tanto conforto. Há uma desconfiança nas intituições: todas elas falharam de uma forma ou de outra. No meu planeta não haveria corrupção e toda a gente teria empatia. Não existiriam psicopatas, sociopatas e narcisistas. Aliás, não existiriam doenças mentais, apenas formas de pensar e funcionar diferentes, que não causassem sofrimento.

Ouço o metro de superfície. Para onde vão aquelas pessoas? Gostava de saber. Passa aqui tanta gente, tantas histórias por escrever. Tantas experiências e vivências. Quem me dera conhecer algumas dessas pessoas, as mais interessantes e mais peculiares. Ouvir as suas preocupações e os seus anseios. As suas paixões e hobbies. As suas histórias mais relevantes. Às vezes desejo isso: desejo falar e desejo conhecer. Explorar e aventurar-me. E a coragem? Onde foi? Pois. Onde foi a coragem que me faz tanta falta. Parece que não está. Mas ela volta. Eu sei que volta. É uma questão de a cultivar. E ela cresce e desabrocha, como uma flor.

E este ventinho frio que vem da rua. Que me penteia os cabelos e arrefece a mãos. Uma manifestação de lá de fora. Uma prenda da natureza. Uma das vantagens de viver bem alto.

Pessoas gritam lá fora, uivos típicos de uma Sexta-Feira. Aliás, Sexta-Feira sem gritos não é a mesma coisa. Há que beber e gritar ou cantar. Há que fazer o que não fazemos sóbrios. Não eu, que não costumo beber mas estes jovens e não tão jovens saem à noite. Lembro-me desse impulso para sair à noite. As noites de sexta e de sábado chamavam-me. Parecia ser mais forte que eu e, de certa forma, era. A noite era catártica, era diversão, era socialização. Beber era só uma forma de libertar o que tínhamos cá dentro. Também era uma forma de testar os nossos limites. Saber até onde podíamos ir. Para além de ser uma demonstração de que éramos adultos, mesmo quando não éramos. Não éramos adultos mas comportavamo-nos como tal. Íamos a discotecas, bares. Bebíamos e ninguém nos pedia a identificação. Talvez fosse a roupa ou a altura ou a fisionomia.

Anos mais tarde, não me deixaram entrar numa discoteca por ter mais de 18 anos. Imaginem. Como o tempo passou. Tinha 25 na altura e achei piada. Não podia entrar numa discoteca, era velha demais. Muito sinceramente também não me interessava estar numa discoteca com adolescentes. Adolescentes andam com adolescentes e adultos andam com adultos. Nada mais simples e acho bem que seja assim. Tal como os adultos muitas vezes não interessam aos adolescentes, também os adolescentes muitas vezes não interessam aos adultos. São vivências diferentes.

Quando eu era adolescente queria ser psiquiatra mas nem cheguei a terminar o 12º ano no ano que devia. Terminei muito mais tarde e entretanto entrei na faculdade, que eu não terminei. É sempre chato não concluir as coisas. É um vazio muito grande, uma sensação de frustração e insatisfação.

Satisfaz-me escrever, ver obra feita, construir palácios de palavras. É tudo o que eu quero na vida. Persisto na escrita há muito tempo. Durante alguns anos não consegui escrever nada. Parecia que estava lentamente a processar a informação dos anos anteriores a esses. Às vezes é preciso parar e assimilar o que se passou connosco. Um dia, a vontade de escrever voltou. Criei um blog em Inglês, de modo a chegar a mais pessoas e, passado um ano, criei este blog. Queria cultivar a escrita em português e partilhar poemas mais antigos. Assim nasceu este blog, em que em ainda vou trabalhar muito. Procuro praticar a minha escrita e expandir as minhas capacidades como escritora e poeta.

Já chegámos à noite. É uma parte tão agradável do dia. O silêncio (excepto hoje, ouço festas ao longe, carros com música alta e algumas pessoas aos gritos), a paz, a harmonia com tudo. A noite é especial. Escondo-me na noite como um ladrão. Roubo palavras para criar arte. E a noite passa e as palavras ficam. Onde ficam as palavras? Aquelas que queremos esquecer e não conseguimos. Aquelas que nos magoam tanto que a dor é quase física. Aquelas que voltam como pensamentos intrusivos. Ficam mesmo. Marcadas na nossa mente, elas permanecem. Gostava de não ter ouvido certas coisas, tal como gostava de não ter dito certas coisas. Há sempre uma dualidade, não é? Quase sempre uma dualidade agridoce.

Chegou o camião do lixo. Costuma vir mais tarde. Como será o trabalho desses homens? Num veículo cheio de lixo, com um cheiro inenarrável. É uma realidade completamente diferente da minha. Há uma diferença entre ter necessidade e poder escolher. Não é um trabalho mal-pago, por isso é bom para pessoas com menos qualificações. Apenas deve ser muito difícil uma pessoa habituar-se ao cheiro, à sujidade, aos dejectos, etc. No entanto, é um trabalho valioso para a comunidade.

Há aqui uma festa nas redondezas. Redondezas pode querer dizer vários quilómetros mas ouço música ao fundo. Será um carro com música alta? Não consigo perceber. Era tão bom se eu tivesse energia e vontade de ir a uma festa. Acho que ia fazer-me bem. Dançar faz um bem enorme. Tinha de ser a música certa, não podia ser uma coisa qualquer. Talvez drum’n’bass ou um techno minimal. Conhecer pessoas novas, fazer coisas divertidas, ver caras bonitas (e não muito bonitas, que também são filhas de Deus), tanta coisa que se pode fazer. Mais uma fuga à realidade do dia-a-dia. Esse engolidor de sonhos e criador de pesadelos. O dia-a-dia que nos consome. De segunda a sexta, o dia-a-dia de trabalhar, trabalhar, trabalhar numa empresa e fazer o mesmo em casa. Não é o meu caso que parei uns tempos de trabalhar mas é a realidade de muita gente. Por isso é que o fim-de-semana é um bálsamo para a mente e para o corpo. Na minha opinião, a semana de trabalho devia ter 4 dias. Teríamos mais tempo para os nossos assuntos, seríamos mais produtivos, estaríamos com menos stress e mais felizes. Talvez para um “workaholic” pareça conversa de preguiçoso mas a verdade é que devíamos poder ter 3 dias (de preferência, dois ao fim de semana e um durante a semana) para podermos reoslver os nossos assuntos, limpar, descansar, etc. O trabalho não pareceria tão opressivo, haveria uma maior sensação de liberdade.

Parece é que quem nos governa não nos quer mais livres mas sim, mais presos. Em certos sistemas quase nem temos tempo para pensar, quanto mais ser livres. Sem tempo, a pessoa não se informa e isso é péssimo. Precisamos de nos manter informados. Saber para onde avançam as coisas. Não precisamos de ver o telejornal todos os dias mas podemos ter um agregador de notícias como o Feedly, que eu utilizo no meu telefone. Eu acho que as notícias vistas assim, de forma gradual, sem grandes vídeos gráficos do que se passa, são mais suaves. Se bem que as notícias e o que se vem a descobrir é cada vez pior. E noutros aspectos, cada vez melhor. Dualidade novamente. Acompanha-nos quase sempre.

Ouço barulho da rua. Um grupo de jovens ao longe. Ouço cadeiras a bater. Mais uma noite nesta cidade. Vozes mais perto da minha casa. Falam alto. Não entendo o que dizem mas também não vou baixar a música. Ouço um carro a arrancar a alta velocidade. Mais gritos. Há aqui um quiosque que está aberto 24 horas. Muita gente vem aqui. Daí o barulho aqui a esta hora. Quebra um bocado a magia da noite. Não me agradam gritos ou que falem alto. Mas vão falando e eu tenho de aguentar. Que remédio.

O metro anda e pára aqui. Vem da estação e vai para a próxima. Parece um avião ou um carro ultra-moderno. É um dos últimos metros, depois há mais silêncio.

(Stream of consciousness é um texto livre que escrevemos para praticar e quando não conseguimos escrever mais nada. É apenas o pensamento à solta em palavras)

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s